Relato de Parto Domiciliar do Gael

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terça-feira, 8 de março de 2016


por Nanda Perim 

Olá! Me chamo Nanda Perim e sou mãe do Théo, de um ano e oito meses, e do Gael, de um dia.
Quando descobri que estava grávida, fiquei chocada, pois não estava planejando. Mas o que me assustava não era a idéia de ter outro bebê, isso eu sabia que eu dava conta. Me assustava a idéia de parir de novo. Na verdade, mais do que me assustava, me deixava em pânico. Minha primeira experiência de parto era algo que eu jamais queria repetir.

Pouco tempo depois, descobrimos que meu marido havia passado num concurso e que mudaríamos de Vitória/ES para Porto Velho/Ro, e por algum motivo, me tranqüilizava saber que eu poderia ter que fazer uma cesária por ter sido diagnosticada com placenta prévia.

Pouco antes de ir para Porto Velho de vez, esse diagnóstico foi abaixo, era apenas um hematoma subcoriônico que já havia secado. Enfim, o parto normal voltou a ser a opção principal. Mas eu não queria outro parto normal como o ultimo, e sabia que alguma coisa teria que ser diferente. Busquei, li e me apaixonei pela idéia de fazer parto domiciliar. Lemos, estudamos, perguntamos e buscamos. Mas esse sonho foi abaixo quando o único grupo de PD de PVH não poderia me acompanhar na data provável de parto. Rui. Mas depois me reencontrei com a idéia de voltar para Vitoria para fazer o sonhado PD. Liguei pra equipe, liguei para o médico, esperei respostas, marquei passagem. A conversa com eles sobre os riscos só me deixou mais animada pro parto domiciliar.. eu sabia que era a opção mais saudável!

E voei grávida de 36 semanas com mala, cuia, filho e marido para realizar o sonho. Com todo o apoio, esperamos ansiosos, na expectativa que Gael viesse a partir de 13 de Março. Meu marido viajou a trabalho, e voltava dia 8 à noite. Estávamos seguros do tempo, mas na manhã do dia 08, com meu mais velho nos braços as 6h, senti uma contração leve. Fiquei na duvida, mas então a bolsa estourou e tive certeza de que algo estava acontecendo. Esperei, senti outra contração, e mais água nas pernas. Liguei pro marido, avisei. Liguei pra doulinda Carol, avisei. E ela sugeriu que eu tomasse um banho de água quente e relaxar. Com o filho acompanhado da Paula (funcionária aqui de casa e um dos suportes do dia), fui pro banho quente. Lá, as contrações ficaram mais doídas, e o intervalo menor. Liguei pra Carol e pedi ajuda. Senti a dor forte, muito forte, e fiquei com medo. Medo, por que estava só no começo, e já doía demais e eu não achava que ia agüentar muitas horas daquilo. Medo, por que meu parto anterior havia durado mais de cinco horas de TP ativo, e com a dor que eu sentia eu não agüentaria nem duas. Me desesperava, e me acalmava, Ficava nervosa, e respirava profundamente pensando “você vai conseguir!”.

Carol chegou e eu já estava nessa crise ambivalente: hora eu queria desistir, hora me sentia forte. E disse pra ela “estou com medo de não conseguir. Estou tendo aquela crise de covardia cedo demais!”. Ela ficou ao meu lado, me deu apoio, falou com carinho que eu deixasse vir os sentimentos também. O deixa vir não é só para as contrações. De repente mamãe chega em casa. Ela, que não concordava com o PD, que não entendia essa minha opção, entrou e disse “estamos juntas nessa!”. Pedi que ela ficasse com o mais velho lá fora, eu queria ficar sozinha mesmo com Carol. Mas aquela frase.. aquela frase eu vou lembrar pro resto da vida! La estava lá, e nós estávamos juntas nessa. As contrações vinham fortes, e em cada uma eu lembrava alguma dica que já tinha ouvido.. pensa no canal abrindo.. pensa que é uma contração a menos.. pensa que é uma onda e o pico dói mas passa rápido.. e eu aprendi a inspirar forte na subida da onde e expirar vocalizando no pico. Isso ajudou muito. Aprendi a relaxar durante a contração, apesar do meu corpo querer se expremer. Isso ajudou mais. A Carol apertava meu quadril com toda a força! Isso aliviava demais. E eu podia sentir algo abrindo entre as pernas. Percebi que aquela era a sensação da dilatação. E decidi que teria controle sobre ela. Eu disse pra mim mesma: “já que é pra doer tanto assim, então vamos dilatar muito em cada contração.” Eu imaginava, então, em cada contração, que eu podia dilatar o máximo. Em cada uma, eu dizia “Dilata!! Relaxa!! E deixa vir!!”. Eu fazia massagens na barriga que faziam as contrações virem mais rápido. Me sentia uma doida, se vai doer tanto, por que estou atiçando? Mas eu queria que elas viessem, trouxessem Gael e fossem embora pra nunca mais! Então eu fazia. Quando eu me perguntava “será que estou em parto ativo? Será que estou no começo? Será que vou dar contar?” a minha resposta era sempre “não pensa nisso agora, deixa vir”.

De repente as contrações paravam.. demoravam um pouco mais, eu descasava, e rapidamente elas voltavam. “Obrigada, corpo”, eu pensava, tentanto ser positiva e intima de mim mesma, apesar de racionalmente me sentir besta. Eu respirava os exercícios que aprendi, eu pensava as frases que li, mas eu fazia o que o corpo mandava. A posição, a caminhada, tudo ele que me pedia. “Você vai conseguir”. Saber que eu não precisaria ir pra hospital nem fazer nem que meu corpo não mandasse me deixava mais tranqüila. Estar sozinha com Carol, no meu habitat, sem pessoas desconhecidas nem aparatos frios. Só a minha casinha, a minha doulinha, e eu.

De repente, uma contração veio forte demais. Gritei muito, gritei alto, e fiquei com medo. “Será que agora são horas delas assim?” “não pensa nisso agora, deixa vir”. De novo. Dessa vez, me deu vontade de agachar. Agachei. Senti uma coisa diferente. Levanta, respira, “será o Gael descendo?” “não pensa nisso agora, e deixa vir!”. De novo, dessa vez vontade de fazer força. “Carol, me deu vontade de fazer coco” “Nanda, você acha que é coco mesmo? Ou é bebe?... “´É bebe!”. Sem querer me dar esperanças, mas ao mesmo tempo empolgada, uma vos de dentro disse “É bebe. É Gael. Falta pouco!”. Chama a Telemi! Muita vontade de fazer força na contração seguinte, fiz força e a contração veio muito forte. Senti o Gael descer, e depois subir. “É assim mesmo”, Carol falou. De novo, força, e dessa vez senti uma pressão enorme e dor. Bastante dor. Ele estava vindo, e aquela dor só significava isso pra mim! “Você conseguiu! Falta pouco! Vamos lá!!”. Contração, força, e Gael obviamente chegando. “Carol, se ele cair? Preciso ficar em pé!” e força de novo. Sinto uma mão calma, é Telemi, minha enfermeira obstétrica linda! Ela chegou a tempo de pegar Gael, sem que Carol precisasse de parar as massagens. “Falta só mais uma” eu pensei. Ela veio, agachei e fiz muita força e senti o círculo de fogo!!! A realidade bateu e não tinha mais como negar! Força, força que não cabe, força que não sei de onde, mas muita força. E saiu a cabecinha e a contração passou. Respira, acalma “ele não saiu todo?” “não, só mais uma”. Olhei pra frente como quem se prepara pra uma maratona e pensei “ultima contração da minha vida! Eu consigo!”. Ela veio forte, enorme, doida, circulo de fogo de novo, e meu filho junto. Olho para trás, e tem um bebê. O meu Gael. Eu consegui!

Ele chegou!! É verdade, eu consegui! “Eu consegui?” Ninguém sabe se eu perguntava ou afirmava. Pego ele no colo, deito na cama, namoro. A Paula chega, minha mãe em seguida. A placenta por ultimo. Mas a visita mais presente era o orgulho. A sensação de ter conseguido exatamente o parto que eu tinha buscado. Não só na minha casa, mas também dentro de mim eu consegui. Eram 10h. Foram 3 horas e meia apenas, apesar de absurdamente intensas. As meninas ficaram 4 horas comigo depois. Cortaram o cordão depois de mais de uma hora para garantir o aporte de ferro, e só tiraram ele do meu colo para pesar. Não teve nem um procedimento invasivo, nem um momento de dor. Banho só dois dias depois por que o cérvix tem vitamina k absorvido pela pele. Tudo o que se provou que não precisa, elas não fazem. Tudo o que já se estudou que é bom é natural, elas sabem.

 Mamou da hora que nasceu até o presente momento que escrevo isso. Sempre comigo. 

Minha opinião? Não foi sorte. Eu busquei isso. “Ah mais segundo parto é mais fácil”, Não sei, por que com o medo que eu estava por causa do primeiro, poderia ter sido ainda pior.
Claro que dentro dos meus processos, da minha experiência, das minhas convicções.. mas eu consegui! Realizei dois sonhos.. o parto domiciliar, e o parto à jato!

Triste por não ter tido o marido do lado, mas feliz pela minha conquista individual. Ele com certeza estava junto, de coração e alma, de apoio e amor. Te amo, meu príncipe! Agora tenho três homens da minha vida..
Grande beijo
Nanda.


Um comentário on "Relato de Parto Domiciliar do Gael"
  1. Olha me emocionei! Parabéns pela conquista e pelo Gael!Deus os abençoes com muita saude

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